O CONCEITO DA PALAVRA INFERNO EM ALGUMAS RELIGIÕES
Segundo as próprias origens lendárias do zoroastrismo, a religião em si teria mais de dez mil anos, uma vez que tem origem entre os arianos que viviam no norte da Sibéria e migraram para a região da Pérsia e Índia há vinte mil anos. Muitos pesquisadores entendem a visão egípcia mais antiga do que a hindu, e os mais ousados afirmam que as religiões do mundo nada mais são do que um reflexo de um conhecimento ainda anterior, remontando às civilizações da Atlântida e Lemúria, com datas que vão de quinhentos mil até dezoito milhões de anos. [1]
Nas construções mitológicas da antiguidade encontramos elementos que serviram de base para a criação de diversos grupos religiosos, muitos dos quais ainda existem hoje em dia. O Zoroastrismo, uma religião pouco conhecida, mas bastante antiga é um desses modelos que influenciou com seus princípios algumas manifestações religiosas.
A figura central é o profeta Zoroastro[2], que nasceu por volta do ano 1000 A.C., segundo a lenda a religião por ele fundada, o Masdeísmo teria mais de 10.000 anos.
Diz a lenda que Zaratustra teria escrito o livro Gathas, que são uma coleção de 17 hinos que formam o Avesta, onde encontramos o principal registro da religião do Zoroastrismo. Ela foi utilizada como religião oficial dos persas a partir do século VI A.C.
A doutrina do Zoroastrismo baseava-se numa visão dialética de mundo, tendo uma essência masculina e feminina ao mesmo tempo. A principal característica seria a permanente luta entre o bem e o mal. Assim todos os acontecimentos do mundo são regidos pelo embate dessas duas forças divinas.
O Zoroastrismo dá ênfase à responsabilidade de cada um com sua felicidade, a qual está vinculada aos atos bons praticados. Assim a felicidade é uma opção pessoal de querer trilhar o caminho do bem, já que este é bem mais fácil do que o caminho do mal.[1]
Sobre essa liberdade de escolha podemos dizer que grande parte das pessoas vincula felicidade à satisfação dos desejos e vive na busca incessante da satisfação de seus desejos e muitas nunca se dão por satisfeitas, querem sempre mais. A felicidade para estes é viver o hoje, o agora. A vida moderna é um exemplo disso, com o consumismo exagerado, shoppings, feiras especializadas em determinados artigos, tudo para atender a satisfação do cliente; parafraseando Adorno em sua obra Dialética do Iluminismo quando diz que por meio da ciência e de tecnologia o homem conseguiria se libertar do medo, tornando-se senhor de seu próprio mundo, mas ao invés disto tornou-se vítima do progresso e da dominação técnica[2]. Lembrando as palavras de Nietzsche, em sua obra “Assim falou Zaratustha”. “Nós inventamos a felicidade. Todos querem o mesmo, todos são iguais. Quem sente de outra maneira vai para o hospício[3].”
Por outro lado, essa opção pessoal de querer trilhar o caminho do bem também pode ser entendida pela mortificação, seria o lado oposto, o extremo, o controle dos desejos que levaria à extinção do sofrimento, visto que se não há desejo a ser satisfeito não existirá a infelicidade para o homem, caso o desejo não seja atingido.
Sidartha Gautama ensinou que devemos procurar sempre o caminho do meio. O ideário budista ensina o controle da satisfação dos desejos, ensina que o homem deve viver com moderação, pois o nosso pensamento e nossas ações são forças que, uma vez expressadas podem ferir e magoar pessoas, inclusive nós mesmos. O caminho do bem ensinado por Zaratustra também foi apontado por Buda e é encontrado na máxima de ouro de Jesus Cristo: “Fazei ao outro o que gostariam que fizessem a vós”.
Ahura Mazda como principal deus do Zoroastrismo, o ser primordial, é tido como entidade de luz, pai de todas as coisas e o princípio de todo o bem, da vida e de tudo que é positivo. Como o Zoroastrismo baseava seus princípios numa visão dualista, deveria existir um outro principio que seria a antítese de Ahura Mazda, seria Arimã do qual emanava todo mal e que andava pelo mundo procurando PERDER AS ALMAS[5]. Assim as duas forças existiam desde o começo dos tempos, sendo uma a luz e a outra sua antítese, as trevas, mas que teriam poder igual, que seriam no final dos tempos reunidos em um só, com o vencimento de Ahura Mazda sobre Arimã, e então haveria um único senhor Deus[6].
Nesse contexto encontramos influências na religião de Mani, cujo fundador tem o mesmo nome, um personagem histórico nascido por volta do século III num vilarejo perto da Babilônia. Pois bem, a doutrina de Mani prega que a salvação humana não necessita de intermediários, da intervenção divina, mas que está justamente na libertação do espírito humano de sua condição material[7]. A religião de Mani ensina que no princípio de tudo estão dois princípios contrários, um bom e outro mau, a luz e as trevas, que lutam entre si.
Assim da luta dessas duas forças, no embate final a luz vencerá as trevas. Logo para alcançar a salvação e encontrar a luz da libertação o homem deve reconhecer que faz parte dessa luz e, portanto, abrir mão de sua condição material, ou seja, ele deve produzir a sua libertação. Como podemos perceber isso é a gnose. De acordo com Mani aqueles que não praticarem essa ascese rigorosa terão que renascer, através de várias transmigrações, até completarem a sua purificação. Podemos perceber que em nenhum momento foi colocado o castigo para aqueles que não aceitam a gnose.
Dentre outras coisas Zaratustra ensinava que o homem teria duas existências, uma terrestre outra celestial e que as boas ações praticadas determinariam o destino da alma humana. Após a morte, a alma humana seria julgada por Rashnu, gênio da justiça, onde seriam pesadas as ações praticadas em vida. Se as ações boas superassem as más a alma iria para o paraíso, entretanto se o contrário acontecesse, ou seja, as más ações pesassem mais nos pratos da balança, então a alma iria para o inferno. Além do paraíso e do inferno havia um lugar intermediário, uma espécie de “purgatório”, onde os habitantes aguardavam o juízo final para subirem definitivamente para o céu, seria o Hamistakam, uma espécie de purgatório[8].
Durante a pesquisa encontrei fontes que dizem que Zarathustra não fala de um lugar para o qual a alma é conduzida depois de desencarnar, mas dizem que “após a morte a alma desincorporada paira sobre o cadáver ou ao seu redor durante três dias, então ela segue pela ponte de Cinvat para conhecer o seu julgamento pelos três juizes das almas: Mithra, Sraosha, e Rashnu[9].” Segundo essa mesma fonte a alma dos justos, os que praticaram boas ações seguramente mantém-se sobre a ponte e lá permanece feliz pela eternidade, no céu, o domicílio de Ahura Mazda. A alma má cai fatalmente da ponte e é precipitada no inferno.
Por outro lado, embora não haja indícios de que isto foi dito por Zarathustra, mesmo assim consta dos escritos referentes à visão de Pahlavi (literatura zoroastrista) sobre uma visita ao Inferno, e onde consta uma descrição realística de seus tormentos, tais como descritos em "O Inferno de Dante". Também cita que consta do Pahlavi a existência do "Estado Intermediário Médio", embora isto não apareça no próprio Avesta.[10]
Como vimos muitos conceitos doutrinários parecem ter sua origem bastante remota.
Quanto à ressurreição e ao livre arbítrio, assim falou Zarathustra, que o homem tem apenas uma vida e tem também, a liberdade de escolher entre o bem e o mal.
Todos terão a ressurreição da morte, um julgamento e um reino nos céus por sobre a Terra, seguido pela punição dos malvados, quando todos os pecados serão finalmente queimados, e toda a humanidade irá existir para sempre com Ahura Mazda[11].
Observamos o Zoroastrismo como uma religião de livre-arbítrio na qual o homem é julgado de acordo com a natureza dos seus pensamentos, palavras e atos, no que pensou, disse e fez durante sua vida. A recompensa para os bons é o paraíso, a "melhor existência"; e para os maus, o inferno, uma "existência infernal".
Outro ponto que vale destacar é quando dizem que o céu e o inferno são mais estados interiores do que lugares físicos. São os locais da melhor existência e da pior existência, ou seja, a morada do bom espírito e a morada do mau espírito. Seria uma idéia mais metafísica da natureza do inferno e do céu. Na atualidade são poucas as religiões que têm esse conceito metafísico da natureza do mal e do bem, pois lhes dão mais uma conotação de estados interiores, de níveis de consciência que propriamente de um lugar físico[12].
Observei que esses princípios se encontram presentes em diversas vertentes religiosas, principalmente as de cunho cristão. O principio da dualidade da existência faz parte do nosso inconsciente coletivo, o cultivo das virtudes, a busca do equilíbrio tudo representa a busca do homem na sua evolução pessoal. As descrições católicas da vida após a morte que se sobrepuseram às demais noções européias apresentavam um inferno, um purgatório, um limbo e um paraíso, acabaram se tornando clássicas e preponderantes, incorporando as dos gregos, por exemplo, que também acreditavam em um julgamento e numa espécie de paraíso, os Campos Elíseos.
Podemos inferir que a eterna luta entre o bem e o mal, a busca de equilíbrio, lembram o budismo, a ressurreição o cristianismo, um fim do mundo encerrando o ciclo atual do tempo e tudo de maneira fabulosa, é também parte da religião Zoroástrica.
FONTES
[1] Civilizações da Antiguidade. Disponível: www.ippb.org.br/modules.phd[2] Zoroastro (tradução para o grego) também é encontrado escrito como Zaratustra ou Zarathustra.
[1] ROCHA, Rui. Zoroastrismo: uma cosmologia dualista. In: O ROSACRUZ. Curitiba, PR. AMORC. n°248, abr/mai/jun, 2004, p. 44-47.
[2] ADORNO, Theodor W. Textos Escolhidos. Coleção Os Pensadores. SP: Nova Cultural, 1999, pg.8.
[3] GIACOIA Junior, Oswaldo-Nietzsche. São Paulo. Publifolha, 2000.
[4] PRABHUPADA, Swami. Em Busca da Verdade: uma história real. 6 ed. Brasília:BBT Brasil, 2002, p. 51.
[5] Enciclopédia.Barsa, Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopedia Britânica do Brasil, 1977. v.7, p.168.
[6] Op. Cit.
[7] PIAZZA, Waldomiro. Religiões da Humanidade. SP: Loyola, 1996, p.228.
[8] Enciclopédia.Barsa, Rio de Janeiro – São Paulo: Encyclopedia Britânica do Brasil, 1977. v. 14 p.169.
[9] Disponível: www.joselaerciodoegito.com.br/site_zdoutrina2.htm
[10] Ibidem
[11] Zoroastrismo. Disponível: www.sivananda.org.br/religioes/zoroastrismo2
[12] Zoroastrismo. Disponível: www.joselaerciodoegito.com.br/site_zdoutrina.htm
Nilda duarte em 04/05/2006