
TRISTES TRÓPICOS
O texto “Tristes trópicos” da autora Maria Luiza analisa a trajetória do racismo na sociedade brasileira ;mito e realidade nas décadas de 30 a 40, no qual a história dos negros no Brasil sempre é contada a partir da escravidão. Decodifica categorias como raça, cor e etnia, bem como examina os fenômenos do preconceito, estereótipo, intolerância e discriminação raciais.
Como argumento inicial ela utiliza a literatura de Gilberto Freire, com sua obra Casa Grande e Senzala, ampliou o debate para além da idéia de que o mestiço seria símbolo de atraso. Freire divulga para o mundo o problema da mestiçagem com o Brasil povoado por negros, mulatos, índios e judeus convertidos ao cristianismo, em busca de uma identidade nacional. De acordo com a visão de Freire a miscigenação proporcionou ao mulato melhores condições de vida e inserção na social (p.35).
Em contrapartida ele defende os velhos estereótipos anti-semita, uma vez que a organização política da época não apoiava a idéia do mestiço contado por Freire, em sua obra Casa Grande e Senzala, haja visto que para o governo Vargas a disciplina do corpo e do espírito, do culto à força e a raça eugênica, a repressão política, a censura tudo era utilizado para manter a ordem no País. Para Vargas todos, comunistas, anarquistas, negros, mulatos, judeus, japoneses, etc, colocavam em perigo a ordem racial, política e cultural do Brasil.
Nesta época o fortalecimento da raça alcançava todos os espaços na mente dos brasileiros. E o discurso oficial do governo procurava incutir na população, que na sua maioria era analfabeta, mensagens ufanistas tentando valorizar a imagem do homem brasileiro como trabalhador, esportista e forte. A Itália era o modelo para o Brasil daquela época.
Vemos nesse contexto outro tipo de categoria que é o racismo ideológico, pois nesse período o que vigorava era a ideologia fascista de Mussolini. Foi a época do surgimento do Partido Nacional Fascista (1934), o grande defensor de todos os males sociais e raciais.
A propaganda daquela época era a maior vendedora de sonhos de todos os tempos, contrariando a lógica da população completamente despreparada para a vida. Nas vitrines das livrarias predominava ampla literatura sobre o nacionalismo, o fascismo e as teorias sociais. O fortalecimento dessas idéias autoritárias e fascistas no Brasil após a revolução de 30 foi facilitado pela indefinição do governo provisório de Vargas, que não apresentou de imediato um projeto político-ideológico, quizá democrático para sociedade brasileira.
A propaganda tornou-se grande líder. Ela veio para controlar seus liderados onde fazia com que a população se conformasse com seu drama emocional, não lutando interiormente, ou seja, a população se tornou um escravo sem algemas.
A Igreja católica não podendo estar de fora deste contexto também adotava o uso da arte e os meios de comunicação para chegar as massas, procurando legitimar-se. Como exemplo Ana Luiza, na página 40, cita o caso do escurecimento da imagem de Nossa Senhora Aparecida, que era originalmente branca, segundo o pesquisador Eduardo Etzil, que teria escurecido por ter passado longo tempo sob as águas. E logo após a abolição da escravatura, para agradar a população negra foi adotada essa política de transformá-la preta.
Alguns teóricos se destacaram nessa época de incertezas políticas e quem assumiu o papel anti-semita foi Gustavo Barroso, o qual promoveu diversas conferências sobre o racismo germânico. Outro que também podemos citar foi Filinto Muller, pró-nazista e anti-semita que, assumindo o posto de líder da policia política, tornou os laços com a Gestapo mais amigáveis.
Podemos perceber que o governo permitia abertamente a entrada dessas ideologias, tanto nazistas quanto anti-semita e cada vez mais crescia a exclusão, pode-se dizer histórica, do negro e do judeu, na sociedade brasileira.
O texto nos leva então a conhecer outra parte da história do Brasil, no que se refere à inserção do comunismo como o próximo inimigo a ser combatido. É daquela época o livro Memórias do Cárcere, de Graciliano Ramos, que nos dá o retrato desse cotidiano, onde negros e mestiços juntamente com os judeus são feitos prisioneiros e acusados de serem comunistas. Época de um passado sofrido, uma herança maldita do tempo da ditadura que deixaram seqüelas no povo brasileiro até hoje.
Tudo isso levava o imaginário brasileiro a ser povoado por inimigos de diversas cores, todos contrários à raça branca. O vermelho, comunista, era o perigo ideológico; o negro, que trazia o mulato, era o perigo racial e o amarelo simbolizava tudo, o perigo racial, político e militar.
O judeu, apesar de ser da raça branca, não era aceito por já ser considerado inimigo há muito tempo.
Como bem coloca a autora Maria Luiza “Tristes Trópicos”. Essa era a nossa realidade daquela época. As lágrimas deixam o anonimato e descem pelas vielas do rosto do estrangeiro que procurou no Brasil a Terra sem males para vir morar.
Fazendo contraponto a todo esse tumulto social encontramos alguns intelectuais que procuram advertir a população e publicam o manifesto Antinazista, que vem assinado por Gilberto Freire, Roquete Pinto e Artur Ramos.
Gustavo Barroso novamente se destaca traduzindo e comentando em 1936 “Os protocolos dos sábios de Sião”. Em cada edição dos protocolos repetem-se as imagens do perigo da dominação judaica, e até hoje os protocolos continuam a ser editados, inclusive no Brasil.
Nos dias que se seguiram a questão judaica afundou no pântano do preconceito. O emigrante judeu se sentia arrasado, dilacerado, impotente e no desespero poderia se perguntar: por que não acreditam em nós, não nos aceitam? Tentavam sobreviver nesse Brasil que cantava “ o teu cabelo não nega” mas espoliava o povo com medidas restritivas. A política imigratória oficial não possuía critérios humanistas e fazia suas vítimas. Neste ponto a autora cita na página 50 a participação de Lasar Segal(1934-1941) na questão judaica com o quadro “Navio de Emigrantes”.
Apesar de já existir na Constituição de 1946 a proibição de racismo no Brasil, foi necessária a instituição de uma Lei que previsse penalidades para os atos discriminatórios de cor e de raça no Brasil assim em 1951 a Lei Afonso Arinos foi editada.
De tudo isto o que se pode concluir é que apesar de existir a Lei, apesar de figurar na Constituição a proibição, o Brasil sofre de um intenso e silencioso racismo, especialmente contra o negro. Embora o preconceito de cor e classe seja mudo, a população sabe que este País discrimina. O brasileiro tende a ser politicamente correto mas, tem dificuldade de assumir o racismo. No Brasil, apesar de ser crime inafiançável, o racismo é difícil de se detectar por que passa pelo lúdico; piadas de negros, judeus, japoneses e portugueses é o que não falta. Como exemplo recente temos o cantor Tiririca, que teve sua música Veja os cabelos dela censurada sob acusação de racismo. Como bem afirma o antropólogo africano Kabengele Munanga, do Centro de Estudos Africanos da USP, “o preconceito está no inconsciente coletivo do brasileiro tanto quanto o ideal da democracia racial”.
Texto preparado para disciplina Religiões Africanas
Bibliografia:Carneiro, Naria Luiza Tucci.Tristes trópicos.in:O Racismo na historia do Brasil mito e realidade..São Paulo: Ed.Atica,2000.pp.35-54.
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